Modelo criado em Goiás para monitorar líderes de facções vira referência nacional e será ampliado para 138 presídios

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Estratégia implantada no Estado em 2020, que já resultou na prisão de advogados suspeitos de atuar como intermediários do crime organizado, passa a integrar a nova política federal de combate às facções

O modelo de monitoramento de conversas de líderes de facções criminosas em parlatórios, criado em Goiás em 2020, se transformou em referência nacional e será ampliado para 138 unidades prisionais em todo o país. A expansão está prevista na Lei Raul Jungmann, nova política federal de enfrentamento ao crime organizado, que prevê o fornecimento de tecnologia, infraestrutura e capacitação aos estados, ficando estes responsáveis pela execução operacional da medida. A iniciativa foi destacada em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo.

Em Goiás, o monitoramento é realizado nas unidades de segurança máxima de Goiânia e Planaltina, destinadas a presos considerados lideranças de organizações criminosas. Juntas, as duas unidades têm capacidade para 390 internos, mas atualmente abrigam menos de 150 detentos. A permanência dos presos nesses locais segue critérios técnicos rígidos, como condenação por organização criminosa, tempo de pena, histórico de transferências entre unidades prisionais e informações produzidas pelos serviços de inteligência.

Justiça garante continuidade da medida

O Governo de Goiás também assegurou a manutenção da política no âmbito judicial. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu os argumentos apresentados pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE-GO) e manteve a autorização para o monitoramento por áudio e vídeo no presídio de segurança máxima de Planaltina, incluindo os parlatórios. Para a Corte, a medida é necessária, adequada e proporcional para impedir que lideranças criminosas continuem comandando ações delituosas de dentro das unidades prisionais. Com a decisão, a autorização foi prorrogada por mais 365 dias.

Advogados presos após operações baseadas nas escutas

Os resultados da estratégia goiana já geraram impactos concretos no combate ao crime organizado. Em 2022, as gravações obtidas nos parlatórios subsidiaram a Operação Gravatas, deflagrada pela Polícia Civil de Goiás, que resultou na prisão de 16 advogados suspeitos de integrar ou colaborar com organizações criminosas. Conforme as investigações da época, os profissionais atuavam como intermediários entre líderes presos e integrantes das facções que seguiam em liberdade, repassando ordens e informações estratégicas.

A eficácia do modelo goiano chamou a atenção de outros estados. Em novembro de 2025, o Ceará passou a adotar a mesma estratégia no presídio de segurança máxima do Complexo Penitenciário de Aquiraz. As escutas realizadas por lá deram origem à Operação Mensageiros do Crime, que resultou na prisão de 12 advogados suspeitos de atuar como mensageiros de organizações criminosas. Autoridades do Ceará reconheceram publicamente que a experiência implantada em Goiás serviu de base para a implementação do sistema no estado nordestino.

Nova lei federal amplia o alcance da política

Com a sanção da Lei Raul Jungmann, o monitoramento de conversas em parlatórios passa a integrar oficialmente a estratégia nacional de enfrentamento às facções criminosas. Pela nova legislação, as gravações poderão ser autorizadas para conversas entre líderes de facções, milícias ou grupos paramilitares e seus visitantes, mediante solicitação da polícia, do Ministério Público ou da própria administração penitenciária.

Nos atendimentos entre advogado e cliente, a medida terá regras mais rígidas: dependerá de autorização judicial e da existência de indícios de colaboração do profissional com a organização criminosa. Segundo o governo federal, a política será direcionada especificamente aos presos com vínculo comprovado com facções e posição de liderança — grupo que representa entre 1% e 3% da população carcerária do país, mas que concentra o comando das atividades criminosas dentro e fora dos presídios.

Ao se tornar modelo para uma política de alcance nacional, a experiência goiana reforça o protagonismo do Estado no enfrentamento ao crime organizado e consolida uma estratégia que já provou capacidade de desarticular redes de comunicação entre lideranças presas e integrantes de facções em liberdade.

Fonte: A Redação
Foto: Divulgação